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Sem Filtro

Esperar por estar pronto parece rigor. Quase sempre é medo com boas maneiras, e disso percebo mais do que gostava.

Por Telmo Silva. Cerca de 8 minutos. Só funciona se não saltares as perguntas.

Escrevo isto na primeira pessoa e sem uma única fonte para citar. Não é um guia: não tem método, não tem investigação por trás, não tem uma ferramenta no fim. É opinião, e é o mais honesto que consigo ser sobre uma coisa que me atrasou anos.

Já escrevi noutro sítio que tive milhares de ideias e que, aos 40 e poucos, ainda não tenho um negócio de sucesso. Esse guia responsabiliza o mercado, e com razão: sem adoção não há produto. Este texto trata da outra metade, a que custa mais admitir. Uma boa parte dessas ideias nunca chegou perto de um mercado que as pudesse rejeitar. Morreram na minha cabeça, muito bem preparadas.

Duvido por natureza. Faço triplo controlo a tudo o que construo e, em engenharia, isso é uma virtude: encontro problemas antes de eles chegarem a produção e não me arrependo de uma única auditoria. Fora da engenharia, a mesma característica tem outro nome. Chama-se mais uma verificação, e serve sobretudo para adiar o dia em que alguém vê o trabalho.

Parece rigor. Quase sempre é medo com boas maneiras.

Uma ressalva a sério

Isto não é o texto que promete que consegues tudo se quiseres o suficiente. Essa frase vende bem e é, em grande parte, mentira. Quem vive com uma doença, uma limitação de mobilidade ou outra barreira real conhece os seus limites melhor do que qualquer texto alguma vez vai conhecer, e não é sobre isso que estou a falar. É sobre a distância, quase sempre maior do que admitimos, entre o que já consegues fazer hoje e o que ainda não estás a fazer.

Achas que isto é sobre ti. Provavelmente é.

Onde estás

Pára um segundo e responde sem embelezar: onde estás hoje, em relação a onde dizias que querias estar há um ano?

A maior parte das pessoas não consegue responder sem se esconder atrás de uma frase feita. As coisas complicaram-se. Não foi o momento certo. Ainda estou a preparar-me.

A terceira é a minha. Uso-a há anos e soa sempre razoável, porque às vezes é mesmo verdade. O problema não está na frase, está no automatismo. Quando serve para tudo, deixou de ser uma explicação e passou a ser uma forma de não olhar para o que aconteceu, ou não aconteceu, por minha causa.

Onde estás não é uma sentença, é um ponto de partida. Só que só funciona como ponto de partida se fores honesto sobre ele.

Três perguntas, sem filtro

  1. O que dizes que queres, mas há meses, ou anos, não fazes nada de concreto para lá chegar?
  2. Da última vez que não conseguiste alguma coisa, quanto foi mesmo falta de oportunidade e quanto foi não teres tentado a sério?
  3. Se um amigo teu tivesse exatamente a tua vida, o que lhe dirias, sem pena nenhuma?

Não precisas de escrever as respostas. Mas não avances sem as teres respondido, a sério, de cabeça.

O que te falta

É aqui que a maior parte dos textos deste género mente. Dizem-te que basta acreditares mais em ti, ou mudares de mentalidade, e que o resto se resolve sozinho.

Não se resolve. A mentalidade importa, e importa muito: a forma como reages a um erro, se voltas a tentar ou se desistes, se vês um obstáculo como parede ou como porta ainda por destrancar, muda tudo o que fazes a seguir. Mas nenhuma mentalidade te dá uma competência que não tens. Não paga uma renda. Não substitui horas de prática. Não apaga um ponto de partida pior do que o dos outros.

Por isso a pergunta certa não é como fico mais positivo. É mais específica e mais desconfortável: o que é que te falta mesmo? Na prática é quase sempre uma destas quatro coisas, e raramente é motivação.

Escolhe uma, agora. Se hesitaste entre duas, é quase sempre a mais desconfortável das duas que é a verdadeira.

No meu caso é o medo, e a minha versão do medo tem um disfarce excelente: chama-se qualidade. Ninguém discute com quem quer entregar melhor. Nem eu.

A coisa pequena

O que separa quem muda de quem só fala em mudar raramente é inteligência, e quase nunca é sorte. É o número de vezes que a pessoa faz a coisa desconfortável antes de se sentir pronta para ela.

Ninguém se sente pronto. A prontidão é uma desculpa vestida de sabedoria.

Esquece o plano perfeito e esquece esperar pela motivação. Ela não vem antes da ação, vem depois, como recompensa por já teres começado.

Para hoje

  1. Escolhe a menor versão possível da ação que andas a adiar. Não é vou correr uma maratona, é vou vestir-me para correr. Ridiculamente pequena. É suposto ser.
  2. Fá-la nas próximas 24 horas. Sem preparar mais nada. Sem ler mais um artigo sobre o assunto, incluindo este.
  3. Repete amanhã, um pouco maior. Não porque apetece, mas porque decidiste que é isto que fazes agora.

Uma distinção, para eu não estar a contradizer-me com o resto do que escrevo aqui. Preparar para uma coisa com data marcada não é adiar. Se tens entrevista na terça, prepara-te para terça, e sobre isso tenho um guia inteiro. O que este texto ataca é a preparação sem data, a que dura exatamente o tempo necessário para nunca haver dia nenhum.

E se a coisa que andas a adiar é uma ideia tua, a versão mais pequena dela quase nunca é construir. É falar com uma pessoa que tenha o problema, sem lhe apresentares a solução. Isso não é preparação, é o primeiro teste, e é a única coisa que este texto e o guia de validação te pedem os dois ao mesmo tempo.

Ninguém vai vir tirar-te daí. Não há um mentor escondido à espera, nem sorte guardada, nem a coisa certa que aparece se ficares parado tempo suficiente.

A única coisa que te dou de graça é isto: és quase de certeza mais capaz do que a tua rotina atual sugere. A distância entre onde estás e onde dizes que queres estar costuma ser mais curta do que parece. Só que ninguém a percorre a pensar nela. Percorre-se a andar.

Fecha isto. Faz a coisa pequena.

Se a coisa pequena que andas a adiar é pôr uma ideia à prova, o passo seguinte já tem método: Quando a Ideia Não Basta trata da parte que este texto não trata, o que acontece quando a ideia sai da tua cabeça e encontra um mercado.

E se discordas de alguma coisa aqui, diz. É opinião, não é sentença.