Quando Ninguém Manda em Ninguém
A pessoa que discorda de ti não reporta a ti, e amanhã ainda precisas dela.
Por Telmo Silva
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O guia sobre liderar pessoas deste site é sobre quem reporta a ti. Este é sobre o resto: colegas de outra equipa, outra função, por vezes outra empresa, que não te devem obediência nenhuma e que continuas a precisar amanhã. Como Quality Coach, fazia calibrações com o cliente para alinhar critérios de avaliação, sem autoridade sobre ninguém do outro lado da mesa. Tenho também formação formal em gerir conflito de equipa e equipas multifuncionais, que fiz depois de já geri gente há tempo, não antes.
É um tipo de atrito diferente do que se resolve com uma conversa de chefia. Não há hierarquia a desempatar, e sair a ganhar à custa da relação custa mais do que resolveres o problema de hoje: amanhã ainda precisas da mesma pessoa.
Uma honestidade sobre o que aqui está
As cinco formas de reagir a um desacordo, no capítulo 2, não são minhas, são um modelo antigo e conhecido, e digo de onde vem. O resto (alinhar critérios antes do choque, discordar sem escalar, saber quando escalar é mesmo a resposta certa) é o que pratiquei a negociar objetivos com quem não reportava a mim. Não é ciência, é o que vi resultar de perto.
Serve para quem depende, no trabalho, de gente sobre quem não tem autoridade nenhuma, o que é quase toda a gente mais cedo ou mais tarde.
A pessoa que discorda de ti não reporta a ti, e amanhã ainda precisas dela.
Por onde começar, consoante a tua situação
Índice
8 capítulos, cerca de 9 minutos. O capítulo 8 vira o espelho para o teu próprio lado do choque.
01Quando Ninguém Manda em Ninguém
Um chefe pode, no limite, decidir e mandar seguir em frente. Entre equipas, essa opção quase nunca existe. A pessoa do outro lado não te deve obediência, tu não a deves a ela, e os dois continuam a precisar um do outro depois de a conversa acabar, bem ou mal. É um tipo de atrito estrutural, não pessoal, mesmo quando parece muito pessoal.
O erro mais comum que vi de perto é tratar este atrito com as ferramentas de gerir uma equipa: dar feedback, definir expectativas, cobrar prazos. Funcionam mal aqui, porque pressupõem uma relação de reporte que não existe. O que funciona é mais parecido com negociação do que com gestão.
Não é o guia de chefia
Se o problema é com alguém que reporta a ti, o guia certo é o outro, sobre liderar pessoas pela primeira vez. Este é especificamente sobre quem não reporta, numa direção nem noutra.
02As Cinco Formas de Reagir a um Desacordo
Kenneth Thomas e Ralph Kilmann propuseram, em 1974, um modelo com cinco formas de reagir a um conflito, cruzando duas coisas: quanto te importa o teu próprio objetivo, e quanto te importa a relação com a outra pessoa ou equipa.
- Competir: o teu objetivo importa mais do que a relação. Ganhas tu, ou ganham eles.
- Acomodar: a relação importa mais do que o teu objetivo. Cedes para preservar a paz.
- Evitar: nem o objetivo nem a relação importam o suficiente para gastar energia agora.
- Comprometer: os dois cedem um pouco, ninguém fica totalmente satisfeito.
- Colaborar: procura-se uma solução que sirva os dois objetivos por inteiro, não uma divisão a meio.
Nenhuma é sempre certa. Competir é a resposta correta quando o tempo é curto e o risco é alto. Acomodar é correto quando o assunto importa mais à outra equipa do que a ti. O problema não é usares uma destas cinco, é usares sempre a mesma, seja qual for a situação, porque é a tua reação automática sob pressão.
Repara na tua reação automática
Pensa nos últimos três desacordos que tiveste com outra equipa. Reagiste da mesma forma às três vezes? Se sim, é provável que não estejas a escolher a resposta à situação, estás a repetir o teu reflexo.
03O Problema Raramente É a Pessoa, É o Objetivo Diferente
Nas calibrações que fazia com o cliente, a discussão nunca era sobre quem tinha razão como pessoa. Era sobre duas equipas otimizadas para coisas diferentes: eu respondia por qualidade e conformidade, o cliente respondia por volume e velocidade de atendimento. As duas métricas são legítimas, e às vezes puxam em direções opostas na mesma chamada.
Quando o atrito com outra equipa parece pessoal, vale a pena perguntar primeiro: pelo que é que esta pessoa é avaliada, e como é que isso choca com aquilo pelo qual eu sou avaliado? Quase sempre há uma resposta concreta, e ela muda a conversa de "porque é que estás a ser difícil" para "como é que resolvemos duas métricas legítimas que puxam em direções diferentes".
Isto não desculpa comportamento genuinamente mau. Mas a maior parte do atrito entre equipas não é isso, é estrutura mal desenhada a ser vivida por duas pessoas que levam a culpa.
04Segurança Psicológica Não É Ser Simpático
Amy Edmondson definiu, em 1999, segurança psicológica como a crença partilhada de que é seguro correr um risco interpessoal num grupo, discordar, admitir um erro, fazer uma pergunta óbvia, sem medo de represália. É frequentemente confundida com um ambiente onde ninguém discorda de ninguém, que é quase o oposto.
Entre equipas sem hierarquia comum, a falta de segurança psicológica aparece assim: em vez de dizerem diretamente "isto não vai funcionar para nós", as pessoas concordam na reunião e depois arranjam formas indiretas de não cumprir. É mais educado à superfície e muito pior no resultado, porque o desacordo continua a existir, só deixou de ser visível a tempo de se resolver.
Criar segurança suficiente para a outra equipa discordar abertamente de ti é, contraintuitivamente, o que evita a maior parte da escalada mais tarde. O desacordo dito cedo é barato de resolver. O mesmo desacordo, escondido durante semanas, chega caro.
05A Reunião Que Devias Ter Antes do Conflito
A calibração existia precisamente para isto: alinhar critérios antes de haver uma chamada real em disputa, não durante. Descobrir que duas equipas discordam sobre o que "pronto" ou "correto" significam é muito mais barato numa conversa combinada do que no meio de um lançamento com prazo a correr.
Com qualquer equipa de quem dependes com regularidade, vale a pena uma conversa curta e periódica, não à espera de um choque: o que cada lado está a otimizar, onde isso historicamente já chocou, e o que fica combinado para a próxima vez que chocar outra vez. Não resolve tudo, mas transforma a maior parte dos choques futuros de surpresa em "já sabíamos que isto ia acontecer, e já sabemos o que fazer".
Uma pergunta que vale a reunião toda
"Da última vez que chocámos, o que é que gostavas que eu tivesse feito diferente?" É desconfortável de perguntar e é a pergunta que mais informação traz, porque obriga a outra pessoa a ser concreta em vez de genérica.
06Como Discordar Sem Escalar
Discordar de uma pessoa que não reporta a ti nem reportas a ela pede uma linguagem diferente da que se usa com a própria equipa. Não é ordem, é proposta, e o objetivo é nomear o choque de objetivos em vez de nomear a pessoa como o problema.
- Nomeia os dois objetivos: "o teu prazo é X, o meu risco é Y, vamos resolver os dois."
- Pede a perspetiva antes de defenderes a tua: "o que é que vocês veem que eu posso não estar a ver?"
- Propõe uma opção concreta, não uma queixa: "e se fizermos X em vez de Y?"
- Confirma o que ficou combinado, por escrito, no fim: memórias diferentes é a fonte mais comum de reincidência do mesmo conflito.
Resposta fraca, e porquê
“A vossa equipa está sempre a atrasar as coisas e a ignorar os prazos que combinamos.”
Ataca a pessoa ("a vossa equipa"), não o objetivo. Não diz o que se propõe fazer a seguir. É desabafo, não é proposta, e convida a outra equipa a defender-se em vez de resolver.
07Quando Escalar É Mesmo a Resposta Certa
Nem todo o conflito se resolve entre pares, e fingir que se resolve, por orgulho de nunca escalar nada, custa mais do que a escalada em si. Escalar faz sentido quando já houve uma tentativa direta e honesta de resolver, o choque é estrutural e recorrente, não um episódio isolado, e continuar a decidir ao nível de pares está a criar risco real, não só desconforto.
Quando escalares, escala o objetivo em choque, não a pessoa: "as nossas equipas têm métricas que puxam em direções opostas neste ponto, e já tentámos resolver ao nosso nível" é uma escalada que pede uma decisão. "Fulano não colabora" é uma queixa que só cria uma versão maior do mesmo problema, com mais gente a assistir.
08O Dia Em Que Foste Tu o Bloqueio
Este guia foi escrito do teu lado do choque. Vale a pena, para fechar, admitir que a outra equipa tem, sobre ti, a mesma história que tu tens sobre ela.
Nas calibrações, a pergunta mais desconfortável de sempre não era sobre a nota de outro coach, era sobre a minha: onde é que a minha régua estava a criar trabalho a mais para o outro lado, sem eu me aperceber? Quase sempre havia uma resposta.
A pergunta para levares desta leitura
Pensa numa equipa com quem chocas com regularidade. Se perguntasses diretamente "o que é que eu faço que vos complica a vida", conseguirias adivinhar a resposta antes de perguntares? Se conseguires, já sabes por onde começar. Se não conseguires, é aí que precisas mesmo de perguntar.
Registo de alinhamentos
A versão do capítulo 5, sem precisar de reunião nenhuma marcada só para isto. Uma linha por equipa de quem dependes ou que depende de ti: onde costumam chocar os objetivos, e o que já ficou combinado da última vez.
Fica guardado só neste browser.
Conclusão
A ideia central deste guia cabe numa frase: entre equipas sem hierarquia comum, quase todo o atrito que parece pessoal é, na origem, um choque de objetivos legítimos e diferentes. Nomear o objetivo em vez da pessoa é o que transforma a maior parte destes choques de queixa em problema resolvível.
Nada disto garante que a outra equipa vai colaborar sempre. Garante que, quando não colaborar, vais saber se é porque o objetivo dela é mesmo incompatível com o teu, ou porque a conversa nunca chegou a acontecer a sério.
Se ficares só com uma decisão deste guia, fica com esta: antes do próximo choque com uma equipa de quem dependes, marca a conversa do capítulo 5 antes de precisares dela, não depois.
Se isto te ajudou a resolver um choque real, conta-me como correu. E se discordas de alguma coisa aqui, ainda melhor, porque é assim que a próxima versão fica melhor.
Isto ajudou-te?
Fontes, e o que é só observação minha
Estilos de resposta ao conflito
- Kenneth W. Thomas e Ralph H. Kilmann, "Thomas-Kilmann Conflict Mode Instrument", 1974: o modelo das cinco formas de reagir a um desacordo (competir, acomodar, evitar, comprometer, colaborar), cruzando o peso dado ao próprio objetivo e à relação.
Segurança psicológica
- Amy C. Edmondson, "Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams", Administrative Science Quarterly, 1999: a origem do conceito de segurança psicológica, a crença partilhada de que é seguro correr um risco interpessoal num grupo.
O resto
- Fui Quality Coach numa operação de customer experience: calibrações com o cliente para alinhar critérios de avaliação, sem autoridade sobre ninguém do outro lado da mesa. Tenho também formação formal em gerir conflito de equipa e equipas multifuncionais. A distinção entre objetivo em choque e pessoa como problema, e a prática de alinhar antes do choque, vêm dessa experiência, não de um estudo.