Comecei Por Necessidade, Não Por Plano
Não decidi ser "técnico". Decidi resolver o problema à minha frente, outra vez, e outra vez.
Por Telmo Silva
Ir para o registo de progresso ↓Porque escrevi este guia
A minha vocação era TI. Tenho um certificado em Ciência da Computação e Informática de 2007. Passei os quinze anos seguintes a fazer outra coisa por completo: apoio ao cliente, qualidade, formação. A minha primeira exposição relevante a programação aplicada só aconteceu já como Technical Trainer, a construir ferramentas de automação em Python para reduzir erro manual na administração da formação. Não foi um plano de carreira. Foi um problema chato à minha frente, e uma forma de o resolver.
Escrevo isto porque a história que se conta sobre "tornar-se técnico" costuma ser sobre decisão e disciplina desde cedo, e a minha não foi nada disso. Foi sobre necessidade, resolvida em pedaços pequenos, ao longo de anos, com uma pausa de quinze anos a meio.
Uma honestidade sobre o que aqui está
Não sou engenheiro de software por formação recente nem por percurso contínuo. O que trago é a minha própria experiência, ainda em curso, e um resultado de investigação sobre prática deliberada que cito com a fonte, no capítulo 5. O resto é a minha história, não um método testado em mais ninguém além de mim.
Serve para quem tem formação técnica antiga e parada, para quem nunca teve nenhuma e acha que isso fecha a porta, e para quem já começou por necessidade, como eu, e quer confirmar que não está a fazer nada de errado por não ter seguido o caminho mais comum.
Não decidi ser "técnico". Decidi resolver o problema à minha frente, outra vez, e outra vez.
Por onde começar, consoante a tua situação
Índice
8 capítulos, cerca de 8 minutos. O capítulo 8 admite que isto ainda não está terminado, porque não está.
01Comecei Por Necessidade, Não Por Plano
Não houve um dia em que decidi tornar-me técnico. Houve um relatório semanal chato, feito à mão, que me fazia perder uma tarde. Automatizá-lo não foi o primeiro passo de um plano de carreira, foi só a forma mais óbvia de deixar de perder aquela tarde.
É uma história menos elegante do que "sempre soube que quereria construir coisas", e é a verdadeira. A maior parte de quem conheço que construiu competência técnica a sério, mais tarde na vida, chegou lá por um caminho parecido: um problema concreto, resolvido, depois outro, depois outro, sem plano nenhum a amarrar os pontos até se olhar para trás.
Não precisas do plano antes de começares
Se estás à espera de ter um percurso claro antes de começares a construir, vais esperar muito tempo. O percurso aparece a olhar para trás, não a olhar para a frente.
02O Diploma Que Ficou Parado Quinze Anos
A minha vocação era TI. Tenho um certificado em Ciência da Computação e Informática de 2007. Durante quinze anos, não escrevi código a sério. Trabalhei em apoio ao cliente, depois em qualidade, depois em formação. O diploma existia numa gaveta, tecnicamente verdadeiro no currículo, irrelevante na prática.
Isto contraria uma ideia comum: que uma base formal antiga te dá vantagem quando finalmente decides usá-la. Na minha experiência, deu quase nenhuma. O que sabia de 2007 estava desatualizado, e o hábito de programar tinha desaparecido por completo. O que realmente contou, quando voltei a construir, não foi o que tinha aprendido então. Foi a disciplina que trouxe de outro sítio, o que é o tema do capítulo 4.
Se tens formação técnica antiga e parada, o conselho é simples e desconfortável: não contes com ela como vantagem. Conta com ela, no máximo, como prova de que já uma vez conseguiste aprender isto, o que ainda serve de alguma coisa, só não é o que te vai levar mais longe agora.
03O Primeiro Script Que Importou
A minha primeira exposição relevante a programação aplicada foi já como Technical Trainer, a construir ferramentas de automação em Python para reduzir erro manual na administração da formação. Não era um sistema, não estava em produção para clientes, não tinha arquitetura nenhuma que merecesse o nome. Fazia uma coisa chata deixar de ser feita à mão.
É tentador desvalorizar esse tipo de primeiro projeto, por ser pequeno e sem consequência para ninguém além de ti. É exatamente o oposto do que interessa: é pequeno e sem consequência que faz dele o sítio certo para começar. Erras à vontade, sem ninguém a depender do resultado, e aprendes o suficiente para o projeto seguinte já não ser o primeiro.
04Disciplina Importada, Não Aprendida de Novo
O que realmente transferiu da década em qualidade e formação para construir software não foi conhecimento técnico, era zero. Foi disciplina: critérios escritos antes de avaliar, verificação antes de confiar, mais do que um avaliador antes de decidir. É a mesma disciplina que descrevo, aplicada a código, no guia sobre verificar o que a IA constrói.
Isto é uma boa notícia para quem vem de um percurso não técnico: a disciplina que já tens, de qualquer área a sério, provavelmente transfere melhor do que imaginas. O que falta não é caráter, é vocabulário e prática específica. O vocabulário aprende-se relativamente depressa. A disciplina, se já a tiveres, não precisa de ser aprendida de novo.
05Começa Pelo Que Te Dói, Não Pela Teoria
K. Anders Ericsson, num trabalho de referência de 1993 sobre a aquisição de desempenho de perito, mostra que o que distingue quem melhora depressa não é o tempo total gasto, é a prática deliberada: tarefas específicas, com feedback imediato sobre o que correu mal, a repetir a parte que falhou até deixar de falhar. Estudar teoria sem aplicação imediata não é isso.
Um problema real teu, por pequeno que seja, dá-te prática deliberada de graça: sabes exatamente quando funcionou (o problema desapareceu) e quando não funcionou (continuas com o mesmo relatório chato à tarde seguinte). Um curso genérico raramente dá esse feedback tão imediato nem tão pessoal.
Um teste para saberes se estás a aprender ou só a consumir
Nas últimas duas semanas, o que aprendeste foi aplicado a um problema teu, com um resultado que podes verificar, ou foi um vídeo ou artigo que ficou arquivado como "para usar um dia"? Se for a segunda opção com regularidade, o problema não é falta de tempo, é falta de um problema real a puxar a aprendizagem.
06O Salto de Scripts a Sistemas
Um script resolve um problema uma vez, para ti. Um sistema continua a funcionar quando tu não estás a olhar, para pessoas que nunca vais conhecer, com dados que não controlas. A distância entre os dois não é de tamanho, é de responsabilidade: um script que falha custa-te uma tarde chata outra vez, um sistema que falha custa a outra pessoa alguma coisa que ela não escolheu arriscar.
O salto não aconteceu de repente. Foi cada projeto a exigir um pouco mais do que o anterior: primeiro só automatizar, depois lidar com o caso em que algo corre mal, depois lidar com mais do que uma pessoa a usar ao mesmo tempo, depois com dinheiro real a passar por ali. Cada exigência nova ensinou uma coisa que o projeto anterior não tinha pedido.
Não saltes esta progressão de propósito, com medo de "perder tempo" em projetos pequenos. É nos projetos pequenos que se aprende, sem custo grave, o que falta para os grandes.
07Construir Não Chega
Aprender a construir resolve metade do problema. A outra metade é conseguir que alguém use o que construíste, e é fácil, vindo de um percurso técnico recente, achar que a segunda metade se resolve sozinha se a primeira estiver bem feita. Não se resolve.
Já escrevi um guia inteiro sobre isso, sobre porque a competência técnica não substitui adoção e o que fazer quanto a isso. Não repito aqui, só deixo o aviso: se estás a meio do caminho deste guia, a aprender a construir, vale a pena leres também o outro antes de assumires que construir bem é suficiente.
08Ainda Estou a Meio do Caminho
Seria mais confortável fechar este guia como uma história de chegada: comecei do zero, cheguei lá, aqui está o mapa. Não é verdade. Construo e opero vários projetos, e nenhum me sustenta ainda por si só. Continuo, todos os dias, a aprender coisas que um percurso técnico contínuo teria ensinado há muito.
Isto não é falsa modéstia, é a razão de este guia existir: se estiveres à espera de sentir que "chegaste" antes de te considerares um construtor a sério, vais esperar mais tempo do que precisas. Ninguém, incluindo eu, sente isso tão cedo como gostava.
A pergunta para levares desta leitura
Não perguntes "já sou técnico o suficiente para começar?". Pergunta "qual é o problema chato à minha frente esta semana?". A segunda pergunta tem sempre resposta. A primeira raramente tem, e é por isso que trava tanta gente antes de começarem.
Registo de progresso
O capítulo 6 diz que o salto nunca se sente a acontecer no próprio dia, só em retrospetiva. Este registo é a retrospetiva feita aos poucos: o que construíste, onde travaste, e como resolveste.
Fica guardado só neste browser.
Conclusão
A ideia central deste guia cabe numa frase: não precisas de um plano nem de um percurso contínuo para construir a sério, precisas de um problema real à tua frente e da disciplina para o resolver até ao fim. O resto, o vocabulário técnico, o salto de scripts a sistemas, aprende-se a construir, não a estudar.
Nada disto garante que vais chegar a algum sítio específico. Garante que, se começares pelo problema chato à tua frente em vez de esperares sentir-te pronto, já vais mais longe do que a maior parte de quem está à espera.
Se ficares só com uma decisão deste guia, fica com esta: não perguntes se já és técnico o suficiente. Pergunta qual é o problema chato desta semana, e resolve-o.
Se isto te ajudou a começar, conta-me o que construíste. E se discordas de alguma coisa aqui, ainda melhor, porque é assim que a próxima versão fica melhor.
O guia sobre a outra metade do problema, conseguir que alguém use o que construíste, está aqui ao lado: Quando a Ideia Não Basta.
Isto ajudou-te?
Fontes, e o que é só observação minha
Prática deliberada
- K. Anders Ericsson, Ralf Th. Krampe e Clemens Tesch-Römer, "The Role of Deliberate Practice in the Acquisition of Expert Performance", Psychological Review, 1993: a origem da investigação sobre prática deliberada, tarefas específicas com feedback imediato, como o que distingue quem melhora depressa.
O resto
- É a minha própria história: certificado de Ciência da Computação de 2007, uma década em apoio ao cliente, qualidade e formação sem escrever código a sério, e o regresso a construir, por necessidade, já como Technical Trainer. Ainda em curso, não uma fórmula testada em mais ninguém.