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Análise de causa-raiz

A Causa Óbvia Costuma Estar Errada

Corrigires o sintoma sente-se a resolver o problema. Normalmente só o adia.

Por Telmo Silva

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Porque escrevi este guia

O guia sobre liderar pessoas deste site já toca em causa-raiz, de raspão, a propósito de alguém que não está a atingir o esperado. Este é o guia inteiro sobre isso, aplicado a qualquer problema, não só a pessoas: um sistema, um processo, uma entrega que atrasa sempre da mesma forma. Tenho Six Sigma Black Belt e passei anos, como Quality Coach, a decidir se um erro repetido tinha uma causa concreta ou se estávamos só a corrigir o sintoma mais visível outra vez.

A tentação mais comum, e mais cara, é parar na primeira explicação que soa plausível e que não obriga ninguém a mudar nada de fundo. Sente-se a resolver o problema. Normalmente só o adia até à próxima vez que ele aparecer, com uma roupagem ligeiramente diferente.

Uma honestidade sobre o que aqui está

Os cinco porquês e o diagrama de Ishikawa, nos capítulos 3 e 4, não são meus, são métodos antigos e conhecidos, e digo de onde vêm. O resto (como saber que chegaste à causa real, o que fazer quando a causa és tu) é o que pratiquei a decidir, por ofício, o que corrigir quando um erro se repetia. Não é ciência, é o que vi resultar de perto, centenas de vezes.

Serve para quem lida com o mesmo problema a repetir-se, com uma equipa ou sozinho, e suspeita que a última correção só tapou o buraco.

Corrigires o sintoma sente-se a resolver o problema. Normalmente só o adia.

8 capítulos, cerca de 8 minutos. O capítulo 7 é o mais difícil de aplicar, e por isso o mais importante.

01O Sintoma Não É o Problema

Um sintoma é o que se vê: a entrega atrasou, o cliente reclamou, o sistema caiu. Uma causa é o que fez o sintoma acontecer. A confusão entre os dois é a fonte mais comum de correções que não corrigem nada: dá-se um curativo ao sintoma, ele desaparece por um tempo, e a causa continua lá, à espera da próxima oportunidade.

Corrigir o sintoma não é sempre errado. Às vezes é a única opção disponível na hora, e comprar tempo tem valor. O erro é parar aí e chamar-lhe resolvido.

Um teste rápido

Se o mesmo tipo de problema já aconteceu três vezes antes, com uma correção diferente de cada vez, isso não é azar. É sinal de que nenhuma das correções chegou à causa.

02A Causa Óbvia Costuma Estar Errada

A primeira explicação que surge numa reunião costuma ter duas características que nada têm a ver com estar certa: é fácil de dizer em voz alta, e não implica que quem a diz precise de mudar nada no que controla. "O cliente não leu bem as instruções" é mais confortável do que "as instruções que escrevemos são ambíguas", mesmo quando a segunda é mais verdadeira.

Isto não é acusação de má-fé. É um padrão previsível: a causa mais confortável de aceitar tende a apontar para fora, para quem não está na sala, para o azar. A causa real, mais vezes do que se gosta de admitir, aponta para dentro.

Resposta fraca, e porquê

Isto foi só falta de sorte, calhou tudo mal ao mesmo tempo.

"Falta de sorte" é o fim de uma investigação, não uma causa. Se "tudo calhou mal ao mesmo tempo" acontece com regularidade suficiente para ser notado, há uma causa por trás da coincidência, e vale a pena continuar a perguntar.

03Os Cinco Porquês

O método dos cinco porquês vem do sistema de produção da Toyota, descrito por Taiichi Ohno: perante um problema, pergunta-se "porquê" à resposta anterior, repetidamente, até deixar de haver uma resposta útil. Cinco é uma orientação, não uma regra rígida; às vezes chega-se à causa em três, às vezes são precisos sete.

Uma cadeia real

Porque atrasou a entrega? A revisão demorou mais do que o previsto. Porque demorou a revisão? Só uma pessoa da equipa sabe rever aquele módulo. Porque só uma pessoa? Nunca ninguém mais foi treinado nele. Porque nunca foi treinado mais ninguém? Não havia processo de substituição documentado. A causa não é "a revisão demorou", é a ausência de redundância de conhecimento.

O limite do método é humano, não lógico: para-se quando quem pergunta se sente satisfeito, não quando a causa real foi encontrada. Uma boa pergunta para saber se já paraste cedo demais: a resposta em que paraste é algo que consegues controlar diretamente, ou continua a apontar para fora de ti?

04O Diagrama de Ishikawa, Quando um Porquê Sozinho Não Chega

Kaoru Ishikawa desenvolveu o diagrama de causa e efeito, também conhecido como diagrama de espinha de peixe, para problemas com mais do que uma causa a contribuir ao mesmo tempo, onde uma única cadeia de porquês é demasiado linear para captar a situação.

O problema fica escrito à direita, como a cabeça do peixe, e as causas possíveis organizam-se em categorias, tradicionalmente pessoas, processo, ferramentas, e ambiente ou contexto. Para cada categoria, pergunta-se o que, dentro dela, podia estar a contribuir para o problema.

  • Pessoas: falta de treino, sobrecarga, rotatividade.
  • Processo: passos pouco claros, sem dono definido, sem verificação.
  • Ferramentas: sistema desatualizado, falta de automação, dados espalhados.
  • Ambiente: prazos incompatíveis com a carga real, prioridades a mudar a meio.

Não é preciso preencher as quatro categorias sempre. É preciso resistir à tentação de preencher só uma, normalmente "pessoas", porque é a mais fácil de apontar e a mais difícil de admitir quando é a errada.

05Corrigir a Causa Errada Custa Mais Do Que Não Corrigir Nada

Como Quality Coach, via isto com regularidade: um erro crítico repetido levava a uma ação de formação de reforço, a equipa sentia-se mais tranquila, e o mesmo erro voltava três meses depois. A formação não estava errada em si, estava a resolver "a pessoa não sabia fazer", quando a causa real era "o sistema permitia avançar sem o passo de confirmação", algo que nenhuma formação corrige.

O custo de corrigir a causa errada não é só o tempo gasto. É a falsa confiança que a correção cria: agora acredita-se que o problema está tratado, o que reduz a vigilância exatamente enquanto a causa real continua ativa. É pior do que não corrigir nada, porque ninguém está à espera de que volte a acontecer.

06Como Sabes Que Chegaste à Causa Real

Duas perguntas ajudam a distinguir uma causa real de uma explicação que só parece uma causa.

  • Se isto deixasse de existir, o problema desaparecia por completo, ou só ficava mais raro?
  • Consigo agir diretamente sobre isto, ou continua a depender de outra pessoa ou de sorte?

Uma resposta como "se isto deixasse de existir o problema desaparecia por completo, e eu consigo agir diretamente sobre isto" é um bom sinal de que a cadeia de porquês chegou a um sítio útil. Uma resposta como "ajudaria um bocado, mas não depende de mim" é sinal de que ainda há mais um ou dois porquês por fazer.

Cuidado com a causa que soa a solução

Se a causa em que paraste já vem com a solução perfeita embutida ("precisamos de mais uma pessoa na equipa"), desconfia. É comum a análise parar assim que chega a uma causa que já queríamos resolver de qualquer forma, não porque seja mesmo a raiz.

07Quando a Causa És Tu, ou o Teu Processo

Este é o capítulo mais difícil de aplicar, e por isso o mais importante. A cadeia de porquês, seguida a sério, aponta com frequência para dentro: um processo que tu próprio desenhaste, um critério que tu próprio definiste, uma decisão que tu próprio tomaste. É muito mais fácil parar um porquê antes disso.

Nas calibrações de qualidade, a pergunta mais desconfortável nunca era sobre a nota de um colaborador. Era sobre se o critério que eu tinha escrito estava a criar o próprio erro que estava a penalizar. Aceitar isso publicamente custava, e era sempre mais barato do que continuar a corrigir sintomas de um critério mal desenhado.

Não há truque para tornar isto confortável. Há só um hábito que ajuda: perguntar explicitamente, antes de fechar a análise, "que parte disto está sob o meu controlo, e ainda não olhei para ela?"

08O Que Fazer Com Uma Causa Que Não Consegues Mudar

Às vezes a cadeia de porquês chega a uma causa real, confirmada pelas duas perguntas do capítulo 6, e essa causa está genuinamente fora do teu controlo: uma decisão de outra área, uma limitação orçamental, uma restrição legal. Chegar à causa certa não significa sempre poder corrigi-la.

Nesse caso, há três respostas honestas, e nenhuma delas é fingir que a causa era outra para poderes agir: mitigar o efeito sem tratar a causa, e dizer isso com todas as letras a quem depender disto; escalar a causa real a quem tem poder sobre ela, com a cadeia de porquês como prova, não como opinião; ou aceitar o risco conscientemente, documentado, em vez de o esquecer até à próxima vez que o mesmo problema acontecer.

As três são melhores do que a quarta opção mais comum, que é corrigir outra vez o sintoma e chamar-lhe resolvido.

Registo de causa-raiz

A versão dos capítulos 3 e 4, sem precisar de quadro branco. Escreve o problema, a cadeia de porquês até chegares a algo que consegues controlar diretamente, e a ação sobre essa causa, não sobre o sintoma.

Fica guardado só neste browser.

Conclusão

A ideia central deste guia cabe numa frase: a causa mais fácil de aceitar raramente é a causa real, porque a mais fácil de aceitar costuma apontar para fora e a real costuma apontar para dentro. Os cinco porquês e o diagrama de Ishikawa são só formas de obrigar a continuar a perguntar depois do ponto em que seria confortável parar.

Nada disto garante que vais sempre poder corrigir a causa que encontrares. Garante que vais saber a diferença entre corrigir a causa e corrigir o sintoma, o que já evita a maior parte do desperdício.

Se ficares só com uma decisão deste guia, fica com esta: da próxima vez que uma correção te deixar aliviado depressa demais, pergunta mais uma vez porquê antes de arquivares o problema como resolvido.

Se isto te ajudou a chegar a uma causa real, conta-me qual era. E se discordas de alguma coisa aqui, ainda melhor, porque é assim que a próxima versão fica melhor.

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Fontes, e o que é só observação minha

Os cinco porquês

  • Taiichi Ohno, "Toyota Production System: Beyond Large-Scale Production", 1988: a descrição do método dos cinco porquês tal como praticado no sistema de produção da Toyota.

Diagrama de causa e efeito

  • Kaoru Ishikawa: origem do diagrama de causa e efeito (diagrama de espinha de peixe), organizado por categorias de causa possível.

O resto

  • Tenho Six Sigma Black Belt e fui Quality Coach numa operação de customer experience: análise de causa-raiz sobre categorias de erro, antes de decidir o que corrigir, centenas de vezes. As duas perguntas do capítulo 6 e a honestidade do capítulo 7 vêm dessa prática, não de um estudo.